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Tratar sem Sintoma? Entenda DE VEZ sobre Disbioses Vaginais

  • vitorreis222
  • 18 de jun.
  • 5 min de leitura

Na postagem anterior (se você não leu o post Lactobacilos e todas as suas Variáveis, recomendo fortemente a leitura), conversamos sobre o papel dos lactobacilos, bem como as suas variações. Vimos que existe uma microbiota vaginal que não é dominada por lactobacilos - a CST IV. Essa microbiota merece uma postagem especial pois, no geral, sua nomenclatura é de "disbiose vaginal", termo que se refere, basicamente, a um desequilíbrio da microbiota normal.


Nessa postagem de hoje, vamos entender TUDO sobre essa microbiota: quais bactérias que compõe esse ambiente, sua prevalência, seus problemas, seu diagnóstico e, o que mais interessa a você: se você deve buscar tratamento desta condição MESMO sem sintoma ou não!


Vaginose Bacteriana
Vaginose Bacteriana

Introdução


Pois bem, quando falamos de disbiose vaginal, estamos nos referindo a uma microbiota que não é povoada, majoritariamente, por lactobacilos. Ao invés deles, existem as bactérias anaeróbicas, que não utilizam oxigênio para sobreviver, e geram energia através de outros processos metabólicos.


Dentre as bactérias mais comuns em uma disbiose vaginal, temos a Gardenerella spp, Prevotella spp, Enterococcus spp, Bifidobacterium spp, Atopobium vaginae, dentre outras. A partir disso, já sabemos uma coisa: as disbioses vaginais, assim como a vaginose bacteriana, são polimicrobianas, ou seja, são infecções genitais compostas por mais de uma bactéria. Além disso, só dentro do grupo de bactérias Gardnerella, temos um dado importante: existem mais de 100 subtipos de Gardnerella! Gardnerella vaginalis, Gardnerella mobiluncus...


Apesar de ser muito difícil de diferenciar estas bactérias em um exame microscópico, o mobiluncus, por exemplo, tem dois pontos cruciais (que serão aprofundados mais pra frente nesse texto): ele tem uma morfologia única no exame, e sua presença muda o tratamento da vaginose bacteriana!


Disbiose Vaginal
Disbiose Vaginal

Dito isso, vem a pergunta: mas qual a prevalência dessas disbioses vaginais? Essa pergunta é difícil de responder, por conta de várias disbioses não causarem sintoma nenhum, e a maioria dos estudos avalia quando as mulheres estão com sintomas sugestivos de uma vaginose bacteriana. O que temos na literatura é uma prevalência próxima de 30 a 40% das mulheres - isso variando de acordo com etnia, status hormonal, gravidez, dentre outros. De qualquer forma, percebemos que é uma prevalência alta, confirmando que essa é a condição patológica mais comum da mulher no menacme! E, se todas as mulheres terão candidíase uma vez na vida (infelizmente, é uma realidade já confirmada em diversos estudos), elas também terão algum grau de disbiose vaginal patológica alguma vez na vida também.


O quê eu fiz para ter isso?


Como eu já coloquei anteriormente, um dos fatores de risco para desenvolver disbiose vaginal é a presença de lactobacilos que não fazem adequadamente a sua função de produzir ácido lático e outras substâncias protetoras - como, por exemplo, o L. iners. Mas, o que mais influencia são os hábitos de higiene íntima e cuidados com a saúde sexual. Segue aqui essa linha de pensamento.


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Vamos começar com os hábitos de higiene íntima. Muitas mulheres possuem hábitos de higiene íntima inadequados, muitas vezes por ensinamentos errados vistos na internet ou passado por gerações (o famoso "minha vó ensinou minha mãe que me ensinou"). E quais são esses hábitos, exatamente? A higiene inadequada (por falta ou excesso de higiene), a realização de duchas vaginais, o uso inadequado de produtos de sabonetes e cremes para a genitália, a depilação incorreta....Enfim, são vários fatores que são possíveis de identificar durante a anamnese que podem justificar a disbiose - se você não leu 5 Hábitos que Atrapalham a Higiene Íntima, sugiro fortemente a leitura! Lá, trabalhei um pouco mais os hábitos inadequados que muitas mulheres têm.


Outro fator importante é a saúde sexual. Se você não sabia que o sêmen é capaz de gerar alergia em cerca de 70% das mulheres, agora você sabe! E o fato de gerar alergia pode justificar um aumento da inflamação local, com distúrbio de lactobacilos e eventual crescimento de bactérias patológicas. Não estou dizendo para você evitar ter relação sexual, mas, o uso do preservativo é bem vindo, especialmente no contexto de disbioses vaginais de recorrência. Além disso, muitas relações na semana, ou múltiplos parceiros, a má higiene íntima após o ato sexual...Tudo isso pode interferir na microbiota!



Certo, e uma vez estabelecida a disbiose vaginal, o que você pode sentir? A sintomatologia é bem variável: pode ser desde sintoma nenhum (ou uma mudança sutil no aspecto do conteúdo vaginal normal - recomendo a leitura da postagem Corrimento: normal ou anormal?) até os sintomas de uma vaginose bacteriana: corrimento amarelado ou esverdeado, bolhoso, com odor fétido (o cheiro de peixe podre), que piora após a relação sexual. Mas, aqui eu reforço: mais de 50% das mulheres são assintomáticas!


Diagnosticando, Tratando e Rastreando


O quê fazer, então, se a maioria das mulheres não tem sintoma nenhum? Vamos organizar uma linha de pensamento...


Vamos conversar, primeiro, sobre as evidências. Tanto em mulheres grávidas quanto não grávidas, a presença de estudos de rastreamento de vaginose bacteriana é pequena, e a maioria não tem a melhor metodologia. Mas, diante do que temos, as recomendações ainda são controversas para rastreamento, especialmente pelo fato de muitas mulheres não reconhecerem os sintomas e acharem que a mudança no corrimento é "normal", e também por não haver estudos o suficiente. O que temos, por exemplo, são estudos observacionais (que são um dos níveis mais baixos de evidência, mas, é melhor do que nenhuma evidência) que mostram redução no número de infecções sexualmente transmissíveis e de outras complicações ginecológicas. Por isso que não é possível criar uma recomendação: os estudos não possuem forte grau de recomendação.


Agora, vamos conversar sobre a vida real e a prática clínica, especialmente a que eu adoto. Considerando que as disbioses vaginais e a vaginose bacteriana estão associadas a complicações ginecológicas e obstétricas, e tendo a possibilidade de diagnosticar ainda na consulta de forma barata e fácil, faz sentido encaixar esta avaliação durante a consulta ginecológica e individualizar o tratamento. Como assim, Vitor? A decisão de um tratamento, especialmente em casos assintomáticos, requer avaliação minuciosa do contexto daquela mulher: como são seus hábitos de higiene íntima? E seus hábitos sexuais? Já teve alguma alteração citológica por conta do HPV? Já engravidou ou pretende engravidar? Qual seu histórico gestacional? Como estão seus exames? Perceba que, diante de tudo isso posto, é possível definir ou não o tratamento.


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Tá, eu falei bastante do rastreamento, mas, ainda não comentei sobre diagnóstico e tratamento. Assim como na candidíase vulvovaginal, o exame físico simples é insuficiente para diagnosticar a vaginose bacteriana, e a chance de acerto é menos que 50%. Hoje em dia, temos o padrão-ouro para diagnóstico de disbioses vaginais: o escore de Nugent. De forma bem resumida, é um escore que utiliza a avaliação microscópica de conteúdo vaginal e avalia a quantidade de lactobacilos e de outras bactérias, pontuando de 0 a 10. Escores mais baixos representam microbiota normal, escores mais altos diagnosticam vaginose bacteriana e escores intermediários representam disbioses vaginais. É um escore subjetivo (varia entre o avaliador da lâmina), mas, é o que apresenta melhor acurácia no diagnóstico.


Um ponto fundamental do diagnóstico é que ele requer a presença do exame microscópico, então, só é possível se o profissional conseguir realizar esta avaliação!


O tratamento desta condição é feito com antibiótico, que pode ser feito via vaginal ou oral. E, como eu disse antes, a depender do tipo de bactéria presente, o tratamento convencional não funciona, por isso a importância em ter a avaliação adequada do conteúdo vaginal com o microscópio.




Conclusão


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Disbioses vaginais e vaginose bacteriana são condições muito mais comuns do que imaginamos, e o dilema de rastrear e tratar mulheres sem sintomas vem à tona. A decisão em tratar deve ser individualizada, e levar em conta tudo aquilo que foi avaliado na anamnese e no exame físico.


Quando lidamos com mulheres com sintomas, o tratamento é inquestionável. E, independente de sintomas ou não, o diagnóstico só é possível com o microscópio, então, procure profissionais que façam essa avaliação durante a sua consulta!


Ficou com alguma dúvida do post? Comenta aqui embaixo!

 
 
 

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