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Corrimento: normal ou anormal?

  • vitorreis222
  • 15 de mai.
  • 5 min de leitura

Introdução


Como primeira postagem do blog, nada melhor do que escrever sobre uma das queixas mais comuns das mulheres: o corrimento. Sim, se você não sabia, o principal motivo para as mulheres procurarem um ginecologista é por conta de corrimento! E isso tem uma explicação: toda mulher terá, pelo menos uma vez na vida, alguma vulvovaginite.


Mulher cobrindo parte íntima com corrimento
Imagem retirada da internet

Antes de começar a conversar sobre o que é normal e o que é anormal, precisamos entender, em primeiro lugar, o que é o corrimento, e de onde ele surge.


Tudo Começa na Vagina


Para falarmos sobre corrimento, precisamos entender brevemente a fisiologia e a histologia da vagina. A vagina é um órgão tubular, com cerca de 07 a 10 cm de comprimento, que se prende superiormente ao colo do útero e forma uma reflexão (o fórnice ou fundo de saco vaginal) e estende-se até o vestíbulo da vulva, onde se abre entre os dois lábios internos da vulva. Estruturalmente, apresenta três camadas: mucosa, musculatura lisa e adventícia. Para este tópico, vamos detalhar um pouco mais sobre a camada mucosa, composta por epitélio escamoso estratificado, ou seja, três principais camadas de células - superficiais, intermediárias e parabasais.


Quando a mulher está nos extremos de idade (antes de menstruar e no climatério), a camada predominante do epitélio vaginal é a parabasal. Esse tipo de célula tem pouco glicogênio (substrato utilizado pelas bactérias e pelo corpo para produzir energia), então, as bactérias que vivem na vagina nesta época não utilizam este substrato para viver - são as chamadas bactérias anaeróbias.


Conforme o tempo passa e essa mulher começa a ter alterações hormonais compatíveis com a puberdade, o estrogênio faz com que aumente o acúmulo de glicogênio nas células epiteliais da vagina, até que novas camadas são formadas - as camadas intermediárias e superficiais). Além disso, por causa do acúmulo de glicogênio, uma bactéria especialmente importante para a mulher chamada de Lactobacilo utiliza este glicogênio para produzir energia, produzindo, também, ácido lático como um "subproduto". Esse ácido lático, além de deixar o ambiente mais ácido, facilita a proliferação de lactobacilos dentro da vagina, fazendo com que este tipo de bactéria prevaleça na microbiota vaginal e torne este ambiente "saudável". Sim! Ter um predomínio de lactobacilos na microbiota é sinal de boa saúde vaginal.



Microscopia para avaliar corrimento
Acervo pessoal - Microbiota normal ou tipo I


De onde Surge o Corrimento?


Pois bem, feita essa introdução, agora podemos conversar sobre o corrimento em si. Em primeiro lugar: o que é o corrimento?

Já ficou claro que o ambiente vaginal é dinâmico, ou seja, as bactérias e as estruturas presentes ali estão sempre mudando, uma vez que, dentro da vagina, além das estruturas anatômicas (principalmente o colo do útero), existem diversas bactérias. O corrimento, tecnicamente chamado de "conteúdo vaginal" nada mais é do que a junção se todas as substâncias que são produzidas/secretadas na vagina, e isso envolve o muco produzido pelas células do colo útero, células do epitélio vaginal que descamam, bactérias, água, proteínas, dentre outros componentes. Até por isso que o termo "secreção" vaginal é incorreto: a vagina não tem "glândulas", e sim vários componentes que geram substâncias que, juntas, formam o corrimento ou conteúdo vaginal.


O conteúdo vaginal normal ou fisiológico, em geral, é transparente, sem odor característico, fluido e, acima de tudo, não gera sintoma de coceira, ardência ou mau cheiro. O pH vaginal normal, por conta do ácido lático produzido pelos lactobacilos, é mais ácido e varia entre 3.5 a 4.5. O aspecto do corrimento pode variar conforme a fase do ciclo menstrual, e algumas mulheres usam essa mudança para saber se estão perto de ovular. Por fim, a sua quantidade diária é muito variável entre cada mulher, mas, não costuma exceder 2 a 5g por dia.


Como Saber se o Corrimento é Normal?


Então, chegamos na nossa pergunta principal: como saber se um corrimento é normal ou anormal? A resposta desta pergunta envolve três aspectos primordiais que serão abordados aqui: anamnese, exame físico e microscopia do conteúdo vaginal.


Vamos falar sobre a anamnese. Precisamos entender, antes de tudo, a queixa. É o aumento do volume do corrimento? Ele está dando algum sintoma associado? Infecções genitais são capazes de aumentar o conteúdo vaginal, de mudar o corrimento (mudar sua cor, seu aspecto, seu cheiro) e gerar sintomas locais como coceira, mau odor, inchaço e vermelhidão local, dor no ato sexual, dentre outros sintomas. Além disso, é preciso avaliar minunciosamente todos os hábitos de higiene íntima da mulher, das práticas sexuais, da sua rotina, da sua alimentação...O conteúdo vaginal é o reflexo de todos os hábitos da mulher.


O exame físico da mulher com queixa de corrimento deve ser completo, e o conteúdo vaginal deve ser devidamente avaliado durante o exame e bem definido. A aferição do pH vaginal é importante pois vaginas mais ácidas ou básicas são sugestivas de alterações na microbiota local e podem justificar a presença daquele corrimento. Avaliar o colo do útero através do exame especular também é importante, já que ectopias cervicais ou patologias do colo do útero também podem alterar o conteúdo vaginal.


Por fim, não menos importante - na verdade, o momento mais importante - é a avaliação do conteúdo vaginal com microscopia. Eu te garanto que sem ela, é impossível dizer se o conteúdo ali presente é fisiológico ou não. Isso porque anamnese e exame físico são insuficientes para diagnosticar qualquer infecção genital. Um estudo de alguns anos atrás comprovou que é mais fácil jogar uma moeda para cima e acertar um "cara ou coroa" do que diagnosticar uma vulvovaginite sem microscopia. Portanto, na prática, precisamos do microscópio para diferenciar o normal do anormal.



Microscópio que avalia corrimento
Microscópio


Fui avaliada, e agora?


Bem, após uma avaliação detalhada sobre o corrimento e de um diagnóstico correto, temos a seguinte questão: e agora?


Vamos imaginar o primeiro cenário, e talvez o mais fácil: existe alguma vulvovaginite que gerou o corrimento. Neste caso, o tratamento é proposto de forma direcionada, todas as orientações são dadas com relação aos hábitos, e uma reavaliação breve deve ser proposta para avaliar a cura após o tratamento - a cura confirmada pela microscopia, claro.


O segundo cenário já é um pouco mais complexo: não existe vulvovaginite, ou seja, é uma microbiota completamente normal. Sim, isso pode acontecer! Como eu comentei antes, o volume de conteúdo vaginal produzido diariamente varia entre as mulheres, e nem sempre um volume dentro do esperado é percebido como normal. Nestes casos, as orientações com relação aos cuidados, ao uso de protetores diários e outros produtos de higiene íntima são importantes, mas, o principal é tranquilizar a paciente, afinal, está tudo bem!


Ter um conteúdo vaginal é algo comum para todas as mulheres, mas, saber se ele é normal ou não nem sempre é uma tarefa fácil. O microbioma vaginal sofre diversas influências dos hábitos de vida, então, adotar boas práticas de cuidados íntimos é o melhor caminho para se criar um ambiente saudável. E, na eventualidade de alteração do corrimento, pode ser um sinal de alerta que merece avaliação adequada!



Corrimento alterado
Acervo Pessoal - Candidíase Vulvovaginal


Como eu posso te ajudar?



ginecologista em Campinas

No meu consultório, o microscópio faz parte da rotina ginecológica, até porque avaliar a microbiota das mulheres tem um papel fundamental além do diagnóstico de vulvovaginites - já existem diversos estudos que associam a microbiota alterada (mesmo sem sintoma) com dificuldade para engravidar, predisposição a infecção persistente pelo HPV, infecção após inserção de DIUs, complicações durante a gestação, dentre outros.

E, juntando a sua história, o seu exame físico e a sua microbiota, traçamos estratégias de cuidado individualizadas, sempre buscando o melhor você em qualquer fase da vida!


Se você está com um corrimento que acha que é alterado, ou conhece alguém nesta condição, eu consigo te ajudar! É só clicar no link de agendar consulta que vamos, juntos, avaliar este problema e propor o melhor tratamento!







 
 
 

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