Ainda vale a pena fazer o Papanicolau?
- vitorreis222
- 29 de jul.
- 5 min de leitura
Todo mundo já ouviu falar do exame de rastreamento contra o câncer de colo de útero que as mulheres realizam: a citologia oncótica (CO). Talvez você conheça por outros nomes: "preventivo", "Papanicolau"...É um exame que, quando surgiu, revolucionou a história das mulheres com câncer de colo de útero, já que facilitou o diagnóstico de lesões cervicais pré malignas ou malignas. Não é à toa que , hoje em dia, é o segundo exame de rastreamento mais feito no país (perdendo apenas para a mamografia)!

Porém, nos últimos anos, surgiu uma nova maneira de rastrear contra o câncer de colo: a pesquisa molecular de HPV. E, diante disso, muitas mulheres ficam com a seguinte dúvida: "Qual exame devo fazer? A pesquisa do HPV ou o Papanicolau?". Se você também tem essa dúvida, essa postagem é para você tirar TODAS as dúvidas sobre esses exames, e discutir junto do seu ginecologista qual é o melhor exame!
O que é o Papanicolau?
Bom, vamos falar um pouco de história: a citologia oncótica ganhou popularmente o nome de Papanicolau em homenagem ao médico que desenvolveu esse exame, Georgios Papanicolau. Esse médico grego, no século XX, descobriu, através de suas pesquisas, que exisita um "padrão de normalidade" das células cervicais presentes em esfregaço sob visualização microscópica, e que as mulheres que possuiam tumores no colo do útero apresentavam células "malignas".

Foi em 1943 que foi publicado o primeiro artigo sobre o tema, demonstrando, inclusive, que algumas mulheres sem qualquer sintoma já apresentavam o câncer de colo de útero, e que o exame era capaz de detectar de forma precoce. E, desde a época, já ficou bem claro que o exame não servia para diagnóstico - afinal, o diagnóstico definitivo de qualquer câncer requer biópsia e estudo histopatológico.
A partir de então, foi visto que a mortalidade por esse câncer caiu, já que o diagnóstico precoce era feito e as mulheres eram tratadas adequadamente.
E como é feito esse exame? De forma simplificada, durante o exame ginecológico especular, o profissional visualiza o colo do útero e faz a coleta com a espátula de Ayre e com a escova endocervical ou "cytobrush", faz um esfregaço deste material em uma lâmina e usa um spray fixador (serve para conservar o material e permitir o transporte). No laboratório, a lâmina é corada através de técnicas específicas, e um profissional capacitado na interpretação do exame (como, por exemplo, um patologista) avalia o exame e fornece o laudo. A partir do laudo, podemos tomar alguma conduta em relação ao exame.

Não entrarei em detalhes do rastreamento nem dos resultados, mas, no Brasil, existe um fluxograma disponível (anexo aqui acima) que auxilia os profissionais na tomada de decisão frente a um resultado de citologia oncótica cervical. O que vale a pena ser ressaltado deste rastreamento é: ele se inicia, de forma geral, em mulheres acima de 25 anos, e é feito até os 64 anos. Após um primeiro resultado normal, ele é feito novamente em 1 ano e, se mantendo normal, o rastreamento é feito a cada 03 anos. Na presença de alterações, ou o exame é repetido em 06 meses a 01 ano, ou a mulher é encaminhada para realizar a colposcopia, exame que avalia, de forma mais detalhada, possíveis alterações presentes no colo, e auxilia na realização de biópsias caso sejam necessárias.
Atualizações no Rastreamento
Nos últimos anos, uma nova maneira de rastreamento contra o câncer de colo de útero ganhou destaque no cenário mundial: a pesquisa molecular do HPV. Esse exame já é recomendado pela OMS desde 2013 como o mais indicado para novos programas de rastreamento, e ganhou mais destaque no Brasil a partir de 2021, após o estudo piloto realizado em Indaiatuba, que comprovou que esse método de rastreio é superior à citologia oncótica. Vamos entender como ele funciona?
De forma simplificada, a coleta da pesquisa molecular do HPV é bem semelhante à da citologia oncótica. Com o uso de uma escova ou uma espátula, é coletada uma amostra de material do colo do útero, mas, ao invés do patologista utilizar este material, técnicas de pesquisa de biologia molecular (como a reação da cadeia em polimerase ou PCR) são aplicadas para avaliar se há presença do vírus do HPV. Alguns testes, além de detectarem o vírus, também são capazes de identificar qual subtipo do vírus que está presente! E essa informação é extremamente útil, já que sabemos que alguns subtipos (como 6, 11, 16, 18, dentre outros) são mais associados ao câncer e, consequentemente, são de alto risco.

E quais seriam, então, as vantagens do teste molecular sobre a citologia oncótica? Em primeiro lugar, a acurácia da pesquisa molecular se mostrou superior à da citologia. Ou seja, apesar da especificidade de ambos serem parecidas, a sensibilidade da pesquisa molecular é superior - isso quer dizer que ela gera menos resultados falso negativos que a citologia, algo que é bem interessante em exames de rastreamento. Em segundo lugar, é um exame mais custo efetivo que a citologia oncótica. Isso porque, além de ter maior acurácia, permite que a periodicidade do exame seja mais espaçada (ao invés de ser a cada 03 anos, o exame pode ser feito a cada 05 anos). Por fim, ele permite a auto coleta. O Papanicolau requer coleta direta das células do colo e, por isso, necessita ser realizado sob visualização direta. A pesquisa molecular, permitindo a auto coleta, torna o exame menos invasivo e mais prático para as mulheres.
A imagem ao lado representa, também de forma simplificada, o fluxograma proposto para uso do exame.
Qual Exame Realizar?
Do jeito que coloquei, parece que a pesquisa molecular só tem benefícios - e realmente tem! Existem duas grandes questões para implementação do exame, e vou listar elas de forma bem breve.
A primeira questão é a implementação do exame no sistema público (SUS). Até a data que esta postagem foi escrita, não foi implementado de forma definitiva o exame no SUS, apenas em ambientes de pesquisa. Já existe um trabalho para implementar este exame de rastreamento no lugar da citologia, mas, ainda não se efetivou.
A segunda questão é o uso pelo sistema privado. A maioria dos planos de saúde, sabendo que é um exame custo efetivo, já implementou o uso deste exame, ou seja, a mulher pode solicitar a coleta deste exame e o plano cobrir sua realização. Mas, existem ainda planos de saúde que não incorporaram este exame. Outro ponto é que, no ponto de vista prático, muitos ginecologistas, ao apresentarem o valor de suas consultas, incluem o valor do Papanicolau nela justamente por ser um exame mais barato. A pesquisa molecular, muitas vezes, é oferecida como algo "a parte" e, por custar 4 a 5 vezes mais (além do valor da consulta), foge do interesse das pacientes. Então, o acesso ao exame acaba ficando mais restrito.
Diante de tudo isso, fica bem claro que a decisão de qual exame realizar é individualizada, e depende muito do contexto em que você está! Se for possível, com certeza a pesquisa molecular do HPV é mais vantajosa do que a citologia oncótica!




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