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Não Normalize Perdas Gestacionais

  • vitorreis222
  • 1 de jul.
  • 5 min de leitura

Um quarto (25%) de todas as gestantes apresentarão um sangramento no primeiro trimestre de gestação. Das que sangrarem, metade apresentará abortamento espontâneo (a palavra "aborto" se refere à interrupção da gravidez com a morte do feto).

Qual um dos maiores problemas que vemos atualmente nos casos de perda gestacional precoce? Ora, de tão "comum" que é esse quadro, ele se tornou banalizado - quem nunca ouviu a frase "Ela abortou, mas, é só tentar de novo"?. Dizer isso, além de ser algo muito dolorido para o casal, é tirar todo o significado e expectativa daquela vida e daquela gestação que se iniciou. E, infelizmente, essa frase e outras é dita comumente quando ocorre um aborto.


Escrevo essa postagem hoje para dizer que, se você passou por um abortamento, você NÃO está sozinha. Aqui, eu vou te explicar da maneira mais clara o possível TUDO sobre perdas gestacionais, trazendo o acolhimento e o cuidado que você merece.

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Por quê o Aborto ocorre?


Sabendo da frequência do abortamento, agora preciso que você entenda o motivo de ocorrer um aborto. Vamos separar em dois grandes grupos: as causas relacionadas à mulher, e as não relacionadas à mulher.


Conversando sobre as causas relacionadas à gestante, sabemos que algumas condições de saúde justificam as perdas gestacionais - é o caso, por exemplo, do diabetes mellitus tipo I ou tipo II descontrolados, doenças na tireoide (hipo ou hipertireoidismo), trombofilias (grupo de doenças que aumentam a coagulação do sangue, e impedem que o embrião faça a nidação de forma adequada no útero). Além disso, o uso de algumas medicações também se relaciona com o abortamento e, muitas vezes, é indicado um método contraceptivo junto da medicação para garantir que a concepção não ocorra em vigência de uso de uma medicação abortiva ou teratogênica. Hábitos de vida (como o tabagismo, o uso de álcool e drogas) também se relacionam com a perda gestacional. E, por fim, alterações anatômicas no útero também podem levar a um abortamento.


Agora, se eu te disser que TODAS as causas que citei acima são a minoria dos casos, você acredita? Isso quer dizer que a maioria das abortamentos ocorre por um motivo que não se relaciona diretamente à mulher ou ao parceiro, que são as alterações cromossômicas do embrião. Como assim, doutor? Segue aqui o texto que eu te explico.


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Cada pessoa tem seu material genético armazenado em cromossomos. O ser humano geneticamente "normal" apresenta 46 cromossomos, sendo que o homem, de forma didática, é representado pela sigla 46XY (o Y se refere ao cromossomo que dá caracteres masculinos) e a mulher é representada pela sigla 46XX. Na hora da sintetizar óvulos e espermatozoides, o material que cada um destes contém é metade do que a pessoa tem, ou seja, os óvulos normais são sempre 23X e os espermatozoides podem ser 23X ou 23Y. Durante esse processo de formação dos gametas sexuais, erros podem acontecer, e o material genética ser anormal (ou seja, ter algum cromossomo a mais ou a menos). Aí, na hora que ocorre a fecundação, o embrião gerado é geneticamente alterado, podendo ter cromossomos a mais ou a menos.


Qual o problema disso? Algumas combinações genéticas são compatíveis com a vida - é o caso, por exemplo, das pessoas com síndrome de Down (ou trissomia do 21), que apresentam um cromossomo 21 a mais, e conseguem viver a vida normalmente. Porém, a maioria das alterações genéticas é incompatível com a vida, e os mecanismos naturais de formação de proteínas e metabolismo ficam alterados.


Por ser algo incompatível com a vida, o quê a natureza, de forma muito sábia, faz? Faz com que o corpo da mulher naturalmente elimine o concepto - e isso é feito através de um sangramento, por um efeito "wash out". Portanto, na imensa maioria dos casos de abortamento, o motivo é uma alteração cromossômica do embrião que não existe um culpado!


Como Diagnosticar o Aborto?


O primeiro sinal clínico de um abortamento é o sangramento vaginal. Esse sangramento é bem variável, podendo ser um sangramento escurecido e em pequena quantidade, ou então um sangramento vermelho vivo, com coágulos e cólica associada (esse último quadro é mais compatível com abortamentos em curso). Caso haja dúvida diagnóstica, o médico assistente pode fazer uso de alguns exames complementares: a ultrassonografia transvaginal e a dosagem quantitativa de Beta HCG. Vamos falar brevemente destes exames.


A ultrassonografia transvaginal permite observar o desenvolvimento embrionário e estimar a idade gestacional através do tamanho do embrião (comprimento cabeça-nádega ou CCN, como aparece nos laudos). Existem critérios ultrassonográficos que indicam um processo evolutivo adequado: por exemplo, embriões com o CCN acima de 7 mm devem conter batimento cardíaco perceptível. Porém, na maioria das vezes, uma única avaliação ultrassonográfica não é suficiente para diagnosticar o abortamento - o ultrassom transvaginal representa uma "foto" daquele momento, e o diagnóstico de abortamento requer, muitas vezes, uma "evolução". Por isso que o ultrassom, em alguns casos, é repetido em 7 a 14 dias, assim é possível avaliar se houve algum desenvolvimento embrionário nesse período.


A dosagem de Beta HCG é útil especialmente quando os sangramentos acontecem antes das 06 semanas da gestação, uma vez que, nessa idade gestacional, é comum não avaliar de forma adequada o embrião. Porém, a dosagem segue a mesma lógica do ultrassom: uma dosagem isolada é uma "foto", por isso que, geralmente, são necessárias duas ou mais dosagens séricas feitas a cada 48-72 horas, assim podemos ver a curva ascendente ou descendente de Beta HCG.


Abortei. E agora?


Antes de mais nada, eu sinto muito. Abortar é perder uma vida que estava em processo de se iniciar. Nem sempre as gestações são planejadas, mas, quando elas ocorrem, são muito desejadas, e cria-se uma expectativa muito grande em torno dessa nova vida. Portanto, quando essa nova vida evolui para uma perda, não só a mulher como seu parceiro e toda sua rede de apoio devem receber os cuidados necessários. O luto deve ser vivenciado, e todo o suporte deve ser fornecido ao casal.


Outro recado que deve ficar bem claro: não se culpe. Ao contrário do que dizem, fazer ou não deixar de fazer algo não teria evitado o aborto. Automaticamente, nós vamos buscar um fator causal para culpar o que aconteceu, mas, a verdade é que não existe um fator pontual que causou, de fato, o abortamento - foi como eu coloquei ali em cima: a imensa maioria dos casos de abortamento é por conta de alteração genética, e não há nada que possamos fazer para mudar esse quadro. Por isso, não se culpe em nenhum momento pelo que aconteceu.


Com relação à parte ginecológica, diversas condutas são possíveis frente a um abortamento: desde condutas expectantes até condutas mais intervencionistas, como a indução de abortamento com misoprostol ou o esvaziamento uterino através da AMIU (aspiração manual intra-uterina). Uma conduta não é melhor do que a outra, e nesse momento a individualização e o respeito às crenças e desejos do casal é o mais importante, e cabe ao profissional assistente mostrar todas as possibilidades de seguimento.


E nesse momento, sempre vem a pergunta: quando posso engravidar novamente? Não existe uma resposta técnica e baseada em evidências para essa pergunta. A partir do momento que o abortamento, de fato, correu (ou seja, a mulher sangrou e o embrião foi eliminado), não existe intervalo "seguro" ou "mínimo" para tentar uma nova gestação - o mais importante, nesse momento, é estar se sentindo bem fisicamente e emocionalmente para uma nova gestação.


Conclusão


Não, não é "só tentar de novo". O abortamento não pode ser banalizado, e a mulher merece todo o apoio pelo tempo que precisar. Não se culpe pelo que ocorreu.


Espero que esse texto tenha te ajudado a entender um pouco mais sobre a perda gestacional, e de tudo que pode ser feito depois do evento. Conte comigo para te ajudar nesse momento tão difícil!



 
 
 

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