top of page
Buscar

Coça e não é Candidíase - Já ouviu falar da Vaginose Citolítica?

  • vitorreis222
  • 4 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Quando conversamos sobre as vulvovaginites, a maioria das mulheres acredita apenas na seguinte frase: "se coça, é candidíase; se cheira mal, é vaginose bacteriana". Eu sei porque eu já ouvi muito essa frase durante meus anos de residência, e agora na minha prática de consultório. Porém, essa frase contém diversos erros.


O primeiro erro é confiar meramente na queixa clínica para guiar o tratamento. Já conversamos sobre isso em outras postagens aqui no blog, mas, a chance de acertar um diagnóstico de vulvovaginite apenas usando anamnese e exame físico é menos que 50%, ou seja, é necessário um método complementar fundamental para diagnosticar corretamente. O segundo ponto, que é o que motivou a escrever esta postagem, é que nem tudo que coça é candidíase. Como assim, Vitor?


Veja, existem diversas outras condições ginecológicas que causam prurido na região vulvar/vaginal, e o tratamento delas é COMPLETAMENTE diferente do tratamento da candidíase - inclusive, utilizar os antifúngicos ou medicações erradas podem PIORAR a situação. Hoje, vamos conversar sobre o principal diagnóstico diferencial da candidíase: a vaginose citolítica! Já ouviu falar dela? Acompanha esse texto até o final para aprender um pouco sobre essa patologia TÃO comum e TÃO subdiagnosticada!




O que é Vaginose Citolítica?


Antes mesmo de definirmos esta patologia, vamos analisar as palavras de forma separada. "Vaginose" é um termo que se refere a alterações na microbiota local normal, sem existir uma inflamação (diferente, por exemplo, da candidíase, que gera uma vaginite). Já sabemos que a microbiota vaginal usual é composta, majoritariamente, por lactobacilos, com presença de outros microrganismos em pequena quantidade (bactérias anaeróbicas como a Gardnerella spp ou a Candida albicans), todos vivendo em harmonia e sem causar sintoma nenhum. Em situações patológicas, essa microbiota muda, seja com aumento ou redução na quantidade de lactobacilos, e gerando uma "vaginose". Quando há o crescimento das bactérias anaeróbicas, chamamos de vaginose bacteriana; quando há o crescimento exacerbado de lactobacilos, chamamos de vaginose citolítica!


Célula superficial vaginal "dobrada" - efeito existente devido imagem em duas dimensões apenas
Célula superficial vaginal "dobrada" - efeito existente devido imagem em duas dimensões apenas

Certo, já entendemos que vaginose se refere ao desequilíbrio na microbiota. Agora, o termo "citolítica" se refere ao achado fundamental desta doença: a citólise. Citólise quer dizer ruptura celular. Ainda não ficou claro, né? Calma, que eu te explico. No momento em que avaliamos o conteúdo vaginal fisiológico de uma mulher, é normal encontrarmos células do epitélio vaginal. Isso porque o epitélio vaginal está em constante regeneração e, consequentemente, as células mais superficiais vão se "soltando" dessa camada. São células que possuem um núcleo (parte roxa mais corada) bem pequeno quando comparado com seu citoplasma (parte rosa clara em torno), que nem na figura aqui ao lado. Pelos mecanismos da vaginose citolítica que abordaremos em seguida, essa célula se rompe (esse efeito de rotura se chama lise), deixando o núcleo "desnudo" e o citoplasma da célula "solto"!



Portanto, vaginose citolítica é a patologia do trato genital que cursa com um desequilíbrio na microbiota vaginal (com excesso de lactobacilos) e com destruição das células vaginais normais. Diferente da candidíase e de outras vulvovaginites, ela não apresenta inflamação local, mas, os sintomas que a vaginose citolítica gera são basicamente os MESMOS da candidíase e de vaginites!


Então como eu sei que tenho Vaginose Citolítica?


Quando uma mulher está com vaginose citolítica, ela terá os seguintes sintomas: ardência vulvar e vaginal, desconforto vaginal, incômodo durante a relação, corrimento esbranquiçado volumoso e grumoso e um vermelhidão local. Sim, os sintomas são EXATAMENTE os mesmos que uma candidíase pode causar!


O motivo delas causarem os mesmos sintomas é o seguinte: a candidíase, por ser uma vaginite, gera uma reação inflamatória no ambiente vaginal, que gera a sensação de coceira e irritação. A vaginose citolítica tem um mecanismo de doença pouco compreendido, mas, o que sabemos é o seguinte: por algum motivo, o aporte de glicogênio para as células epiteliais vaginais é maior, e esse acúmulo de glicogênio permite que os lactobacilos se multipliquem mais, e gerem mais ácido lático. Esse excesso de ácido abaixa muito o pH vaginal normal e, por um excesso de acidez, as células se rompem, e surge essa irritação! Então, perceba que, apesar dos sintomas serem os mesmos, são mecanismos COMPLETAMENTE diferentes!


Então, como somos capazes de diferenciar as duas patologias? Microscopia de conteúdo vaginal! Sim, é o ÚNICO jeito de conseguirmos diagnosticar a vaginose citolítica. Utilizando critérios específicos e muito bem definidos na literatura, através da avaliação microscópica do conteúdo vaginal chegamos neste diagnóstico. Veja aqui nas imagens ao lado que as duas patologias são bem diferentes.



Candidíase - visualização de uma hifa
Candidíase - visualização de uma hifa
Vaginose Citolítica - excesso de lactobacilos e células rompidas
Vaginose Citolítica - excesso de lactobacilos e células rompidas





















Vale ressaltar que a prevalência da vaginose citolítica é subestimada. Isso porque são poucos os profissionais que realizam a microscopia e conseguem diferenciar as duas entidades. Muitas vezes, os profissionais usam o contexto que a mulher está e que favorece o surgimento da doença (mulheres grávidas ou na segunda metade do ciclo menstrual, com alimentação rica em laticínios, uso de probióticos) junto dos sintomas e tentam tratamentos empíricos na esperança de melhorar essa condição!



E como Tratar?


Na maioria das vezes, a vaginose citolítica é uma condição transitória, ou seja, ela vai melhorar independente de qualquer tratamento feito (por isso que tratamentos errados "funcionam"). A ideia dos tratamentos realizados é de reduzir a acidez local e aliviar os sintomas causados pelo excesso de ácido lático.


Para alívio dos sintomas, podemos fazer uso de banhos de assento com chá de camomila ou utilizar absorventes gelados nessa mesma infusão. Basicamente, a orientação é de aquecer 500 mL de água filtrada até a fervura, e adicionar 2 colheres e meia de sopa de camomila a granel (ou 4 sachês comerciais), tampar o recipiente e deixar infundir por 10 a 15 minutos e interromper o aquecimento. Depois, coar e esperar esfriar na geladeira, podendo armazenar por até 24 horas. Pode fazer uma imersão de absorvente nessa solução e depois já fazer o uso, ou colocar o absorvente no freezer e depois utilizar conforme a necessidade.


Para reduzir a acidez local, podemos fazer uso do bicarbonato de sódio ou do borato de sódio em formulação de óvulo vaginal (que eu, particularmente, prefiro) ou fazer uso da ducha vaginal (uma das poucas indicações de ducha) com bicarbonato. Lembrando que a indicação de qualquer tratamento requer o de sempre: anamnese bem feita, exame físico completo e microscopia de conteúdo vaginal. Como coloquei anteriormente, existe uma infinidade de patologias que cursam com sintomas irritativos vulvares e/ou vaginais, portanto, a avaliação médica é fundamental!


Conclusão


Nem tudo que coça é candidíase. Se tem uma frase que eu gostaria que você aprendesse de toda essa postagem, é essa. A vaginose citolítica, mesmo com tratamento errado, vai melhorar sozinha - mas, não quer dizer que ela mereça avaliação adequada, principalmente nos casos de recorrência. Sempre temos algo a fazer para garantir que você tenha bem-estar e boa saúde íntima! A perda financeira por conta das infecções genitais e vulvovaginites chega a atingir a casa dos bilhões todos os anos, por mulheres que se sentem incomodadas e humilhadas com sintomas de coceira íntima e mau cheiro, portanto, vejo que a minha função como ginecologista é garantir que VOCÊ não passe por isso, e consiga ter o melhor para sua saúde!


Para eu te ajudar, é só clicar no link aqui abaixo, e me acompanhar nas redes sociais, onde posto constantemente conteúdos baseados em evidência - afinal, conhecimento é poder.



 
 
 

Comentários


bottom of page